Ê trem bão demais da conta!

Por: Carolina Pessoni

28/12/2010 12:07:19


Bariani Ortêncio

“Fí, num me amola, não! Arreda essa cadeira e vem comer uma galinhada boa demais da conta!” Se você é goiano, entendeu a frase. Se você é de outro estado, teve alguma dificuldade em compreender o pedido para acabar com a chateação e o convite para se sentar e comer arroz com galinha. É devido a esse tipo de peculiaridade que o jeito do goiano falar torna-se particular e único.

Num país de território tão extenso como o Brasil, seria impossível que a fala não tivesse suas características próprias em cada região. Assim como o “Bah, tchê!” do Sul e o “Oxente!” do Nordeste, o Centro-Oeste tem suas características próprias. De acordo com a linguista da Universidade Federal de Goiás (UFG), Maria Suelí Aguiar, é comum que o jeito do goiano falar seja parecido com o do mineiro, já que a maioria das famílias goianas é descendente de famílias de Minas Gerais. A tese é reforçada pelo escritor e Presidente da Comissão Goiana de Folclore na UNESCO, Bariani Ortencio. Ele explica que os costumes são muito parecidos no norte de São Paulo, no Triângulo Mineiro e em Goiás, região chamada de Corredor das Bandeiras, que é por onde começou a colonização pelo Centro-Oeste do Brasil. “Os bandeirantes fizeram esse caminho para chegar ao interior do País. É natural que o jeito de falar, a comida, os costumes, sejam parecidos”, enfatiza o escritor.

Bariani Ortêncio estuda há mais de 40 anos a cultura goiana e do Centro-Oeste. O estudo deu origem à “Trilogia da Sabedoria Popular de Goiás”, como o próprio escritor define. O primeiro livro foi Cozinha Goiana, que contém não só receitas, mas também a história da alimentação no Estado. O segundo registro foi o Dicionário do Brasil Central – Subsídios à Filosofia, com mais de 15 mil verbetes, lançado em 1983 pela Editora Ática. O último livro da “coleção” é Medicina Popular do Centro-Oeste, que explica a sabedoria do povo no cuidado com a saúde.

O Dicionário do Brasil Central teve a segunda edição lançada em 2009, acrescido de três mil verbetes com explicação e exemplos de aplicação. O livro explica expressões comuns ao povo goiano, assim como palavras usadas somente no interior do Estado ou por pessoas mais velhas. Bariani explica que a idéia de produzir um dicionário veio da vontade de registrar a cultura do Centro-Oeste. “Com todo o progresso e tecnologia nossas raízes vão se perdendo, por isso escrevi esses livros. Quando alguém, daqui a muitos anos, quiser entender mais da nossa cultura, vai ter onde pesquisar”, enfatiza o escritor.

Na apresentação da versão digital do Dicionário, o editor do livro, o jornalista Wolney Unes, esclarece um dos processos de modificação das palavras no falar do goiano. Ele explica que a mudança da composição correta da fonética da palavra ocorre, em grande parte das vezes, pela inclusão de uma vogal no início das palavras, especialmente a vogal “a”, como, por exemplo, alembrar (lembrar) e apois (pois). Entretanto, o prefixo “a” pode ter a função de, simplesmente, enfeitar a palavra. “Posso dizer a um convidado: ‘Sente-se’. Mas caso queira dar alguma ênfase, então posso dizer também ‘Assente-se’”, explica Wolney.

Assim como fazer acréscimos a algumas palavras, é muito comum retirar uma letra, ou até mesmo aglutinar sílabas de outras. De acordo com a professora Maria Suelí, essa nova composição acontece no “goianês” devido à rapidez da pronúncia local. “Em Goiás, de modo específico, as pronúncias são abreviadas e aglutinadas entre si. Por exemplo, é comum ouvir dizer ‘Cê varreu d’bai da cama?’ ao invés de ‘Você varreu debaixo da cama?’”, explica.

Bariani Ortêncio diz que o ritmo da fala influencia no sotaque e no modo de falar de cada região. “O paulista fala mais gritado, o mineiro, compassado. Já o goiano tem a fala mole, um sotaque que chega a ser hospitaleiro, convidativo”, brinca. O escritor diz ainda que, além de juntar palavras e colocar letra onde não há necessidade, na pronúncia coloquial o goiano fala abreviando a última sílaba e ainda faz o plural de maneira inversa. “Quer um exemplo? Goiano tem mania de falar ‘Eles fizero’ ‘Ques menino?’, tudo ao contrário”, ilustra o escritor.

De acordo com a professora Maria Sueli, a influência latina e indígena também é forte na criação de palavras usadas pelo povo goiano. Por exemplo, a palavra “injeitar” vem do latim éjêctar, que significa “recusar”, assim como “tapera” vem do tupi taba-puera, que significa “casa velha”. “Em Goiás tivemos a presença de bandeirantes que formavam grupos com paulistas, índios, africanos e quilombolas. Essa mistura pode ser vista na escolha lexical”, explica a linguista.

Criar palavras também é uma característica clássica do “goianês”. Assim como em qualquer região, com o tempo os neologismos são incorporados ao vocabulário e tornam-se palavras comuns às pessoas. “A regra é a palavra ser criada e, depois, ser aceita e usada por outros. Quando são bem sucedidas passam a ser dicionarizadas”, explica Maria Suelí. Sob o mesmo ponto de vista, Bariani Ortêncio diz que “a língua não é o que está escrito, é o que o povo fala”.

Em Goiás criam-se palavras e também se dá novos significados às já existentes. Quem nunca viu um legítimo goiano pedir “Pega aquele ‘trem’ pra mim”, quando se refere a qualquer objeto? A professora Maria Suelí explica que isso acontece porque, antigamente os goianos ouviam várias expressões, mas não tinham o referencial do que realmente significavam. “Segundo alguns depoimentos de senhores nascidos em Goiás, ‘trem’ era uma expressão muito comum entre seus pais e, por não saber ao certo o que era um trem de ferro, ficou como sendo todo e qualquer objeto”, esclarece

Fonte: Curta Mais

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